quinta-feira, agosto 12, 2010

Chegou a hora de partir, meu amigo

Meu amigo, a estrada é essa. Experimente jogar os cabelos para fora para sentir que estamos mesmo indo, finalmente indo, seguindo em disparada contra o desespero do vento, escrevendo o nosso destino com as linhas das mãos que sobem e descem entre a tormenta que desce fria lá atrás, lá no começo de tudo, no fim da nossa velha vida de viver pensando quando é que estaríamos vivendo assim, no caminho, em busca de nada senão dos nossos desatinos acometidos de loucura, de sobriedade profunda. Não tem mais volta, não tem mais curvas, não tem mais montanhas, colinas e esquinas que possam espreitar as nossas ânsias satisfeitas que dançam despreocupadas nos nossos devaneios perdidos no futuro, nas chegadas, nas despedidas, nas linhas que escrevemos sem precisar pensar muito, sem precisar imaginar nada.

Parece que agora irreperavelmente conseguimos atravessar a linha, as margens da poesia, e poderemos enfim encontrar Stills, Nash, Crosby e Young, os velhos homens das barbas cultivadas, e acertar a conta com a nossa felicidade que andava um tanto desesperada para poder começar a cantar. Vamos só acelerar, pisar fundo para o fundo do mundo, para a luz que nos espera do outro lado do túnel, as árvores, as tardes sem chuva, só para ver a natureza respirando, os cometas colidindo, os viajantes perdidos suspirando estrelas enquanto esticam o dedo para mais uma carona antes de mais uma cidade, de mais um hotel barato para dormir. Chegou a hora de viver, de ser, de olhar para trás e não se arrepender de não ter vivido, de não ter sido, e de não ter partido.

Chegou a hora de partir, meu amigo. Chegou a hora de partir mais uma vez.

Bernardo Biagioni

Ontem ela fugiu para barcelona

Ela quer morar no mar. Não quer mais que uma casa de madeira, dois quartos pequenos e uma sala com quatro janelas grandes, sem cortina, que é para nunca esquecer que pode fugir para o horizonte toda vez que precisar. Do lado de fora vai ter um tapete sempre cheio de areia, uma rede colorida, estirada entre os dois coqueiros que vai plantar assim que chegar, e uma grade amarela, baixa, pequena, que não tenha medo de receber quem quer que possa aparecer da estrada, das viagens sem chegadas, dos caminhos de partidas.

Ela quer acordar com o sol. Não quer teto no seu quarto, sombras no seu tempo, escuridões desesperadas no realento das manhãs que nascem por trás das montanhas esquecidas nos cantos da ilha. Quer ver as estrelas adormecendo, as nuvens passeando e os pássaros se arrastando entre os vendavais e temporais que sempre avisam que estão chegando. Deitada em sua cama ela quer poder pincelar nos dedos as estrelas que se confundem solitárias na imensidão silenciosa da madrugada.

Ela quer saber amar. Ela quer amar como amam as cartas, as lágrimas de saudade, os bilhetes improvisados nos guardanapos que navegam em garrafas vazias nas profundezas distantes do oceano. Não quer ter dias, semanas, planos, relógios, nomes e datas. Ela quer o tempo, todo o tempo do mundo, que é para conseguir respirar com clareza, com leveza, sem precisar acordar outra vez ofegante no meio do vazio que já foi a vida.

Ela foi ontem. Foi para barcelona.
Não apareceu no trabalho. Nem no bar.
Não disse nada, não deixou nada escrito.
E todo mundo sabe que ela não vai voltar.

terça-feira, agosto 03, 2010

depois das curvas do mar

Começou a escurecer tarde hoje. Duas curvas depois de sair da praia, encontramos uma reta longa, plana, que se perdia no horizonte iluminada pelos últimos raios de sol sobreviventes no céu azul, infinito por cima da cúpula das árvores plantadas de frente para areia, para o oceano. Pedalamos um pouco mais forte até começar uma descida leve, mergulhada por entre dois campos largos de plantações de uvas, uma dúzia de montanhas que subiam e desciam até as curvas mais distantes da Toscana. Senti no rosto o primeiro vento fresco do dia, uma brisa rápida, falha, que trazia envolta na maresia o cheiro do mar, dos barcos de pescaria estirados na areia, dos casebres de madeira e pedra erguidos no acostamento. Aumentei a música, virei meu corpo uma última vez para a água, para a costa da Itália, para os andarilhos que ficavam no caminho, e comecei a descer.

Fechei os olhos,
Eu vi você.

Bernardo Biagioni

quinta-feira, julho 22, 2010

Naquelas tardes de Paris

Naquelas tardes em Paris tudo que eu pensava era que tínhamos finalmente conseguido arrancar um fiapo de tempo da nossa linha do tempo, um filete mais colorido do que o caule, a linha central, e que parecia ficar ondulando livremente toda vez que algum vento suspirava para perto de si. Nossas conversas, caminhos e lampejos não poderiam fazer parte do real, do mundo real, onde tudo acontece por uma razão explicável, as ações, os gestos, e até o movimento caótico dos cabelos diante uma tempestade anunciada. Parecia sempre um sonho, um lapso da vida, do cosmos, uma chance transcendental de conseguirmos mergulhar de vez pelas veias recofontartes do mundo, essas estradas, essas viagens sem saudade. Nunca tínhamos horas para chegar, e nunca sabíamos quando iríamos embora, contando que não perdessemos o último metrô na estação do Louvre, em algum momento da madrugada. Naquelas tardes nós éramos livres, muito livres. E sabíamos disso.

Bernardo Biagioni