quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Reflexos

É bom quando vem em ondas. O raio desce pelas têmporas, rasga o tímpano como um ruído até desaparecer em uma tontura titubeante. Oscila entre temperaturas flamejantes e esfria as condolênscias do corpo. Imploramos que não, mas continua descendo pela traquéia, chega aos pulmões e, fica então, se debatendo efusivamente nas quatro paredes de alvéolos. Quando começa a ficar melhor, logo vem o pânico, o suor e a ansiedade.

Mas o pensamento ponderado resguarda sua segurança psicoátiva e você sabe que sua respiração já já irá voltar. Aí o corpo responde, o coração volta a trabalhar e as pernas sentem-se úteis novamente. Os céus que estavam fechados se abrem e as nuvens que filtravam seu horizonte se desfazem na rua como gotas cambaleantes de chuva. O que eram rugas, vira sorrisos e o que era dor, vira clamor.E, em segundos, tudo acaba, sua visão não é mais turva e as mãos sentem ânimo novamente.

Agora, então, você pára e respira. Seu corpo treme e agoniza até a verdade atravessar a sua mente sem anseios. Você está de frente para o espelho e não quer mentir para si mesmo: "Eu preciso de mais uma dose de beijos".


Reflexos,

Bernardo Biagioni

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Bon Voyage/Carnaval/Carta II

De: Bernardo Biagioni
Para: Raul Sampaio

Carta II

Tudo bem, eu explico porque eu convidei aqueles dois ‘canibais fumadores de erva’ para a viagem. Ontem nós saímos de madrugada para dar uns tiros. Pegamos uma arma de paintball enferrujada e fomos para um trilho de trem abandonado que fica perto lá de casa. A brincadeira era a seguinte: empurrávamos alguém para frente e começávamos a disparar sem dó nem piedade. Tudo estava correndo bem, até que um dos nossos perdeu o controle e disparou contra a janela de um prédio. Tivemos que ficar abaixados na grama até que a polícia desistisse da detenção. Enquanto os cães farejadores faziam seu serviço sujo, a gente conversava sobre extraterrestres, amigos abduzidos e seres geneticamente modificados.

Vou te confessar que o Antônio estava trincando. À medida que as histórias iam se desenrolando, o sujeito seguia no exercício silencioso de comprimir todos os músculos do corpo, uma nítida reação de ansiedade, pânico e inquietação. Depois, quando já estávamos em um posto de gasolina, ele veio caminhando baixinho na minha direção e perguntou: “Cara, aqueles casos eram de verdade?”. Raul, veja bem: Eu sentia correr uma pontada de fascinação por cada extremidade daquele corpo – O Antônio estava se revirando na vontade de encontrar um extraterrestre e desencadear de vez o misticismo encrespado em cada poro de seu cérebro. Então, sem perder o controle, coloquei minha mão direita sobre seu ombro e exclamei com convicção: “Venha com a gente para o Carnaval. Você vai encontrar todas as respostas que desnorteiam os seus pensamentos. Todas as suas dúvidas serão preenchidas com certezas absolutas e os seus devaneios mais íntimos serão esclarecidos um a um”.

Quanto ao Flávio, o outro ‘canibal de erva’, ele entrou nessa por forças surpreendentes do cosmos. Estávamos em algum bar conversando sobre a Sensação de ser Brasileiro, Mitos do Carnaval e descobrir uma Força interior e acabei fazendo o convite. Acho que todos nós estivemos remando no mesmo barco há algum tempo sem saber. Essa Viagem será uma chance de mergulharmos no limite da nossa Consciência para tragar e beber os distúrbios inverossímeis da nossa mente. Lembro quando li Aldous Huxley pela primeira vez: “Se as portas da percepção estiverem abertas, você verá o mundo como ele realmente é: infinito.” É isso, entende?

Bom, agora nos resta brindar a infinitude da nossa alma e encarar de cabeça as próximas vibrações. A hora está chegando e, quando for o momento certo, poderemos gozar a essência de todos os sentidos da nossa Alma e sentir, pela primeira vez, o Poder de ser Brasileiro.

Bon Voyage,

Bernardo Biagioni

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Carnaval/Carta I/Resposta I

De: Bernardo Biagioni
Para: Raul Sampaio

Carta I

Pode ficar tranquilo que já estou preparado para o Carnaval. Acordei hoje cedo e montei os dispositivos que manterão os morcegos afastados do carro. Vamos precisar de água. Muita água. Receio que vamos nos perder pelo caminho, mas também tenho estudado alguns mapas. Acho que renderá uma boa história, se você quer saber. De repente uma reportagem que poderá mudar a vida das pessoas. Coloquei na mochila alguns livros que podem lhe interessar, inclusive o Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe. Vamos precisar de ajuda profissional para conversar com aquelas meninas do campo. Ah! Não esqueça da barraca. Tentei conversar na pousada hoje e me falaram que o estabelecimento havia sido alagado na última madrugada. O mais estranho é que a última vez que choveu naquela região foi em Junho do ano passado. De qualquer forma, o sujeito que me atendeu lá do outro lado não parecia estar mentindo. Eu sentia correr pela fiação o pânico que regojizava sua espinha vertebral.

Hoje cedo, passei no supermercado e garanti alguns alimentos - Estão falando que até o final da semana não haverá muito o que comer por aqui.
Já separei uma quantidade exuberante de pilhas. Serão necessárias muitas horas de energia. A sua fantasia de dançarino também já está empacotada. Não encontrei o chapéu de marinheiro, mas vou procurar amanhã cedinho. Fora isso também tem os CDs. Pensei em deixar alguns discos aqui, acho que não precisaremos de nada muito pesado nos próximos dias. Selecionei uma grande quantidade de músicas caribenhas, havaianas e cubanas. Também vou levar Jorge Ben, Bezerra da Silva, Adoniran Barbosa e Gotan Project - As garotas podem ficar a fim de dançar um tango mais acelerado quando a noite cair. O violão vai ficar. Assim que chegarmos, podemos invadir uma loja de instrumentos e recolher tudo que for necessário. É Carnaval, o dono não vai nem notar. Tem ainda as vodkas, as cervejas, a tequila e o Rum. Pensei em misturar tudo e levar uma garrafa só, mas uma atendente de telemarketing me aconselhou que não seria uma boa idéia. Bom, como eu disse no começo, já estou preparado para o Carnaval. Não ha com o que se preocupar - Logo,logo estaremos sentados no carro e poderemos sair acelerando por aí.

Ciao,

Bernardo Biagioni
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De: Raul Sampaio
Para: Bernardo Biagioni

Resposta I

Maldita memória essa sua hein?! Ainda bem que estou aqui cuidando do resto, senão... Bem, senão seria melhor nem imaginar.

Eu te avisei! Deixei até um bilhetinho na maçaneta da porta: "LEVE CAMELOS". Ninguém deve subestimar a utilidade de um animal desse porte. Caso não saiba, camelos podem ficar meses sem beber água. Dizem por aí também que eles nunca se cansam. E, caso ficarmos perdidos (posso ver que você, como eu, já está contando com isso. Ainda bem!), podemos nos alimentar da carne deles. Crua. Claro.

E, outra: Invada a loja de eletrônicos hoje de madrugada. Lá pelas 00:22, ou qualquer outra hora que ninguém suspeitaria. Pegue o máximo de gravadores que achar. Com certeza eles têm vários por lá. Digo isso pois cresci por aquelas bandas. Se te pegarem, não fale nada! Ou melhor, fale, mas seja breve. Diga que estava a procura de comida, mais precisamente, de sorvete. Não tem como, eles vão acreditar...

Gravadores roubados.
Riffs virtuosos.
Calças de couro coladinhas.
Mulheres peitudas.

Estarei acampado em frente a minha casa te esperando.


*Não acredito que aqueles dois canibais fumadores de erva vão nos acompanhar. A responsabilidade é toda sua!

Raul Sampaio

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Viva você.

JustificarViva a música, meu amigo! Viva tudo que foi cifrado, composto, rotulado e refutado. Viva a poesia, gente fina. Viva tudo que virou sinfonia, traços suaves no descompasso da nossa melancolia. Viva as drogas, os doces e as plantas, vamos colocar tudo ali na varanda e chacoalhar os cabeções. É isso aí, viva fazer a cabeça, fazer com que tudo isso enlouqueça sem deixar vestígios. Viva tudo que foi sofrido, o que não foi sofrido e o que vamos sofrer. Viva sim o sofrimento, é este aí o mais útil tormento para te tornar feliz. Viva a felicidade, então! Viva a vaidade, os perfumes e a lipoaspiração. Viva os quilos a menos e os quilos demais. Viva o surfe, o skate e a onda. Viva também o futebol, desaconselhável besteirol para quem quer chorar nos finais de semana. Viva os destinos, o destino e o destinatário. Viva os versos, os inversos e o contrário. Viva os desencontros, os encontros e os outros contos. Viva o cigano, o malandro e o brasileiro. Viva os Beatles, o Zeca Pagodinho e o Tom Jobim. Viva tudo que é latino, tudo que for assim. Viva o samba, o merengue e o mambo. Viva a salsa o blues e o tango. Viva os sorrisos, os rostos e as maquiagens. Viva os beijos, os lábios e as carnes. Viva os abraços apertados, as despedidas e a chegada. Porra, Viva também a estrada, a minha última namorada que não abandonei. Viva a verdade, as mentiras sinceras e os carnavais. Viva o sóis, as luas e os temporais. Viva tudo, meu amigo.

Viva você!

Bernardo Biagioni