quarta-feira, julho 30, 2008

Valsinha IV

Tenho saudades, pode? Sem essa de buscar beijar o teu beijo em outros beijos alheios. Eu quero o seu, sim? Quero jogar o meu pensamento enlouquecido para cima de seu pescoço descoberto, beijar-te no centro, olhar-te de perto. Não quero o murmúrio dela, toda aquela clientela freguês do meu refinado português. Quero sentir medo, como quando contigo. O medo sofrido de escolher os provérbios incertos, nos momentos perversos. Certo? Não quero mentira, tanta poesia mendiga em cima de um amor banal - ou seria carnal? Quero dançar, você dança? Arrastar as mangas das mangas envelhecidas do meu esperar. Não espere. Eu não te quero como quando queria aquela. Toda aquela aquarela para cima de um preto e branco. Você é colorida, entende? Vestígio merecido de toda iluminação que me devaneia a mente. E sem essa de chorar as minhas lágrimas sobre os ombros de outrora. Na verdade, eu te quero agora. Quero arrastar os meus passos de malandro para cima de seu humor cigano. Pra que mudas tanto? Se todo o breve encanto do meu canto repousa sobre o teu caminhar? Fica? Eu vou lhe serestar! Três acordes, a viola está afinada. A sanfona vem no dorso, a gaita foi desempenada. Segura essa lamúria que eu vou te pedir para voltar. Um, dois, três... Essa é a Valsinha IV. A quinta vem logo atrás.

Bernardo Biagioni.

terça-feira, julho 29, 2008

Valsinha III

Eu não sei falar latim. Mas escrever-te-ia assim, se tanto fosse necessário. Aquela estória de ser poeta e não saber amar... Eu não sou poeta (sou?) e não sei amar. Mas eu sei amar, também. Sei amar os teus lábios, sim? Eu conheço o teu caminhar. O barulho como desliza a tua rasteirinha de forma sorrateira pelo beco escuro da minha vida - miserável? Mas eu sou um tanto feliz, juro. Contudo sou vítima deste desafeto inoportuno de querer-te por demais. Eu te quero demais. Sei ate quando teus olhos terão de piscar. Posso sentir a tua musculatura facial se curvando à um sorriso inocente, decente como não se vê mais. Você é linda, pois eu digo. Linda ate quando tenta parecer chata, opaca da luz que seus olhos procuram cintilar. Você é um beijo. A ligação entre dois lábios carentes, duas mentes descontentes de se verem sozinhas - num mundo febril? Eu sou gentil, vale esta rima? Eu posso escorregar os meus dedos esquerdos sobre todo seu corpo, sem parecer maníaco ou louco. Eu sou louco por você. Queria poder negar sem medo para o meu espelho que este coração de merda está batendo por você. Mas sou fraco, lembra? Sou fraco da cabeça, desde o momento que toquei em você. Eu toquei uma canção, não? Alguma bossa-nova velha perdida no meu aiaiai Brasil. Eu te quero, viu? Quero como queria querer alguém lá quando escrevi, e não menti, a minha primeira poesia. Não vou falar que te amo, porque não sou poeta. Ou não sou poeta porque não vou falar que te amo? Na verdade, quem se importa? Adoro-te.

Bernardo Biagioni.

quinta-feira, julho 17, 2008

Valsinha II

Quero apaixonar-me, pois. Arrepiar o arrepio dormente dos meus órgãos senis. Sentir-te, com tudo. Contudo debruçar-me sobre ti com todo respeito que o despeito exige constar. Quero beijar-lhe, depois. Beijar-te agora já não me satisfaz. Quero escorregar os meus dedos de piano sobre os teus lábios serenos. Calar-te. Quero silenciar o seu tormento, bagunçar o momento de nós dois. Palavras. Também quero palavras. Quero fazê-las dançar sobre a sala entristecida de chorar. Arrastar a melancolia para o tapete persa que desconversa o meu penar. Sinta. Meu coração explode em rajadas flamejantes de sentimentos roucos, gritos loucos. Ponha sua mão sobre meu peito, descança-te. Quero trazer-te para perto, pro sentimento incerto de felicidade. Mas tenho medo, pode? Quero querer te querer sem ter medo de o horário chegar. Mas você partirá? Não, não vá. Aprendi uma cantiga nova, uma trova antiga de um velho professor. Vou versar-te os meus amores, os meus clamores. Quero tanto, mas quero pouco. Quero nós dois no pôr-do-sol que se escondeu no porta-retrato empoeirado. Quero apaixonar-me, pois. Quero você, agora, lá fora, ou depois. Vem?

Bernardo Biagioni

segunda-feira, julho 14, 2008

Não sei não!

Eu não sei. Confesso que não sei. Não sei escrever-te meu pranto, o tão seco acalanto de um antigo trovador. Não sei segurar os teus braços, abraçar os teus abraços e te pedir paixão. Eu sei amar, seria digno, então? Cruzar o realento atento do mau-tempo que não deságua em meus oceanos - De lágrimas? Mas não choro, porém. Quisera eu ter-te comigo, sozinhos. Um cinema, dois. Três barzinhos, quatro? Quero galgar teu corpo em busca de um beijo. Escorregar o meu palpear pelos seus traços, alcançar os seus compassos. Mas não sei brincar. Sei sorrir, pudera? Posso fazer-te gargalhar na segunda-feira cinzenta que se apropria daquela vestimenta usada. Colocar-te para dançar o tango malandro do cabaré infernal. Ui, nada mal! Tomar-te de jeito, esquivar o teu cortejo ate tocar-te no chão. Quero você comigo no chão. Mas quero tanto, posso eu? Eu não sei, não sei. Mas sei conversar baixinho, suspirar um continho e chegar de mansinho. Sei invadir sua janela, tirar-te da vida. Saia dessa vida! Venha, aqui tem vitrola, versete e carnaval. Tem acalanto, sorriso e vendaval. O tempo sabe fazer o frio. Mas o meu o corpo é quente e te quero tal. Vamos sambar o samba escondido da vida. Aclamar a chama de nós dois. Vem comigo. Arrasta um passinho pela pista que eu aperto-te em meu peito. Vem. Eu não sei muito, confesso que não. Não sei falar assim bonito, nem tão feio não. Mas sei dançar. Mambo, polca e carnaval. Dança comigo, meu bem?

Bernardo Biagioni