sexta-feira, novembro 21, 2008

B.B.

Sou o poeta que consome os desprazeres da vida. Sorvo das íntimas misérias que abalam os versos sinceros de outrem. Sou o incrédulo indiscreto que corre os olhos pelos caminho de outrora. Bêbado, maníaco e alucinado vou me arrastando pelo cotidiano massacrante da aurora. Sou o desencontro macabro da penumbra matinal. Os sorrisos perdidos nas despedidas de desdém. A mentira que corre pelo corpo e não volta. Sou a volta do crepúsculo tardio que não foi. Viajo no tempo sem você e com ninguém. Mergulho nas profundezas messiânicas para erguer-te um salvador. Sou fraco e forte, numa mistura ainda aquém. Sou rápido e ríspido, como nos desenhos da esquina. Desatraente e senhor do meu próprio desatino, sou o que há de pior em você, também. Incoerente e inoportuno - Eu sou uma farsa, meu bem.


Bernardo Biagioni

quarta-feira, outubro 08, 2008

Cansei

Cansei. Cansei dos amores imprevisíveis, das paixões inatingíveis e destes sonhos momentâneos. Cansei dos versos tropeçados, das trovas mal-cuidadas e do nosso desencontro. Estou farto de horário desmarcado, calendário descuidado e desta agenda pouco atenta. Não quero mais que caminhemos em direções contrárias, todas aquelas insistências de namorada e este mal-tempo no meu realento. Cansei do sorriso que não foi trocado, de todo beijo que não foi roubado e essa poesia mal-levada. Não acredito mais em distância e toda essa cobrança que não é digna de nós dois. Cansei do que foi de menos e não quero que sejamos tão jamais. Agora eu quero ela. Agora eu quero mais.

Bernardo Biagioni


terça-feira, setembro 09, 2008

Estrada

Mas, me diz: e se eu largar tudo? Largar o verso, o caminho, o sozinho e o inverso? E se eu sair pela estrada? Largar mão de sofridão, solidão e futura namorada? Apostar a minha miséria, colocar a minha cabeça à prova? E se eu deixar pra trás o escrito, o versículo e o proseado matinal? O Sorriso, a rosa e a cola? Largar mão da droga, da ex-sogra e o temporal. Cansei, não vale? Pensar dói, escutar machuca. Sou menino, olha? Não sei negociar, pechinchar, reclamar ou desconversar. Eu sou menino, não vê? O meu destino não prevê tamanha cobrança. Eu quero minha raiz, não crê? Quero a poesia sincera que marcou meus dedos de tinta. Não quero maquinizar, padronizar e nivelar. Preciso voar. Me deixe ir, senhor doutor? Me deixe arregaçar as mangas arregaçadas e descobrir o mundo - de novo. Eu quero de novo. Chega de tempo, atento, tormento e ilusão. Eu quero os 20 anos que você me mandou ter. Me dá? Largar mão de bobagem alheia, desapontamento e carreira. Me dá uma dose de liberdade, picaretagem e sinceridade? Larga mão de mim. Me vê uma estrada?

Bernardo Biagioni

domingo, setembro 07, 2008

Desencontro Marcado

Ah! A maneira como ela joga os cabelos para trás. O homem é bobo, não percebe a sutileza, a coesão dos movimentos. A forma como empurra os problemas do mundo para a esquina da vida. Ela anda com seu vestido rodado rodando os anseios dos medos, contornando as incertezas dos desejos. A facilidade com que prosa, roga as alegrias alheias para uma composição amena de tranquilidade. Ela canta e não descobriu. Ela gesticula os versos menos perversos que o tango cigano ousou arriscar. É uma valsa. Ela valsa com os tormentos dos momentos que esqueceram de chegar. A maneira como conversa. Versa uma organização perfeita de palavras certeiras para um coração apaixonado. Envolve ainda o descrente, crente que o amor se esqueceu de amar. Ah...E quando ela brilha os olhos. A fraqueza é tão forte que parece de propósito. Acorda o meu coração desacordado do poder da desilusão. Eu quero encontrar o desencontro desse encontro. Se o desEncontro não fosse um encontro, ele não teria a hora marcada estampada alí no fim. Vem hoje! Vem depois! Eu te quero assim: perdida no encontro de nós dois.

Bernardo Biagioni.