domingo, fevereiro 06, 2011

seguindo estrada acima com devendra banhart

Permita-me sol o crepitar do fogo, coloca assim uma chama mais quente na minha alma, uma chama que dance, uma chama que arda, uma chama que queime mesmo quando apagada, quando não alarmada pelos lampejos gracejados dos desencontros mundanos. Quero que tudo que tenha dentro de mim se inflame de vontade, de desespero profundo, de desencanto continuo, um pedaço de vida que ande sempre comigo, Morro abaixo, Morro acima.


Quero amar, sol. Mas só sei amar se for para sempre.


Permita-me também a calmaria, permita-me assim dois segundos de suspiro; meu corpo inteiro mexe rápido demais quando inventa de esbarrar nas vontades da Vida, Subir Morro, Descer morro, amar todas as noites como se todas as noites fossem as ultimas noites para se amar com sinceridade, com sobriedade, com a Verdade que só o Agora pode permitir.


Permita-me lembrar do seu nome, sol. Permita-me desenhar o seu desenho em duas claves de sol maior.


Porque agora eu estou partindo - indo e ondulando - seguindo estrada acima com devendra banhart repetindo as mesmas musicas no estéreo estourado do carro, vinte e nove cidadelas aparecendo e desaparecendo pela janela, chuva e vento no caminho. Permita-me Sol que eu não encontre nem sombras e nem destino, nem medos nem delírios, e deixe só o meu rosto sorrir mais, a minha alma cantar mais, e minha vida inteira ser mais, mais, mais, mais, mais.... Mais ate do que eu poderia suportar.

sábado, dezembro 04, 2010

eu não consigo dormir quando penso no tempo em que estamos vivendo

Houve um tempo em que era fácil dizer não. Um tempo em que eu tinha cinco, sete, treze anos de idade e ficava no banco de trás do carro observando pouco a paisagem, perguntando quando tempo faltava para chegar, os hormônios de ansiedade palpitando por cada pedaço do corpo, um prazer imensurável pelo destino. Dias e noites onde tudo tinham um fim específico, claro, mesmo que fosse só construir uma casa de madeira na árvore segura e espaçosa, com vista para as margens do rio.

Pouco se percebia a paisagem como se percebe hoje. O caminho. Fica mais fácil dizer sim para o Mundo quando se compreende a beleza, a importância e a existência das montanhas, as curvas e curvas das estradas, as duas faixas amarelas no centro meticulosamente desenhadas, pintadas e preocupadas em te levar adiante, além do que se vê por cima do horizonte que mergulha nos filetes de sol que sobrevivem depois das nuvens que estão no céu.

Nenhuma palavra pode descrever o que é estar vivo neste período particular da história, ano de dois mil e dez, com todo um sentimento universal se espalhando em correntes antes não existentes. Ficou mais fácil se unir para criar, para se juntar, e para fazer acontecer. Ficou mais fácil construir um tempo especial a sua maneira, explosivo e efêmero, eterno e mutável, e - mais do que tudo – sincero. Ficou mais fácil ser sincero com o que somos.

Hoje sou um sismógrafo. Eu sinto, eu escrevo.

E não importa a magnitude dos fatos, a duração dos tatos, a procedência e o culminar, o dobrar da esquina numa sexta-feira de frio. Tudo que balança o meu universo vira palavras e virgulas, combinações cuidadosas de frases montadas como um quebra-cabeça de peças infinitas. Posso marcar o topo. Posso sentir o quase nada. E vou sempre continuar Sendo.

É como uma pena. Cedo ou tarde ela tem que se libertar para poder voar inconsequente no meio do vento, carregada pela brisa, pela maresia das praias que encontrar no caminho, nos sopros e lampejos que impulsionarão seus voos sorrateiros pelas raízes da vida. Hoje é cada vez mais natural, inevitável e necessário embarcar na viagem, aceitar o caminho, Ser e deixar-se viver pelas escolhas libertinas orientadas pelos mistérios do planeta.

Dois mil e dez, pois. Quero só deixar registrado que eu vim, vivi, e estou vivendo. Todos os outros momentos da história já existiram, já tiveram um início, e já aportaram em um final. Mas esta noite não. A manhã de amanhã também não. Essa década inteira apenas começou a ser escrita.

Fico pensando em tudo isso olhando a cidade inteira brilhando lá embaixo, milhões de centelhas de almas acendendo e apagando em bares com os letreiros acesos, milhões de almas iluminadas em faíscas em cada tato que tateiam, em cada conversa desajeitada que é desconversada, olhos e beijos explodindo em saudade de tudo que podemos Viver amanhã. Não é porque estamos em 2010. Ou porque todo esse espírito parece com o de 1960. É simplesmente porque agora é... agora. E o depois é o infinito. Só o infinito e tudo mais.

terça-feira, novembro 09, 2010

existe ar quando voce voltar

Meu silencio em ti tem nome, nobre desabandono do meu coração solitário que desanda a andar em todo tato que é feito de beijos, de lábios e lábios sibilando os gritos que gritam na alma. É assim como se fosse uma espécie de encontro do desencontro perfeito, eu e você andando sem jeito pelas curvas do mapa sem nunca se esbarrar senão nas horas trocadas, erradas, sempre tardes demais, sempre cedas de menos.

Somos intensos o bastante a ponte de trocarmos faíscas todas as vezes que nos esbarramos no Acaso.

Nosso amor é uma necessidade, um pretexto rápido para encontrarmos as nossas felicidades plenas adormecidas em algum canto do peito. Em ti eu descubro em mim toda a saudade que sofre o homem, toda a verdade que não se encaixa em palavras, em versos, mesmo estes que andam por aí desarmadamente sinceros. Meu silêncio em ti não tem nome, tem dia de chegada, da primeira despedida, e carrega o cheiro de perfume que ficou no nosso desengano. Nunca vai ter fim. E sempre estará aqui dentro cantando.

quarta-feira, novembro 03, 2010

baby & devendra banhart

Eu não sei o que me incomoda até começar a olhar o seu retrato, o meu sorriso retalhado de saudade no reflexo, minhas lembranças dançando em silêncio pelas músicas que dançamos encostados no carro, debaixo da lua que sobe por trás da montanha. Dá até assim um arrepio sem jeito no peito, ouvindo devendra banhart imaginando você lá dentro do banheiro no chuveiro, assobiando um trecho errado de baby, de santa maria da feira, ou de qualquer uma dessas canções que mechem tanto comigo. Vão dizer que tudo isso é amor, que tudo isso só poderia terminar em um clamando pelo outro de vontade, que tudo isso é bobagem ou sacanagem do destino. Mas eu digo que é só música, meu bem. Eu digo que é só a nossa música tocando de novo.