domingo, maio 06, 2007

Vin Rouge

Melhor que o sabor do vinho,
só o fato de poder ver a garrafa se esvaziando.

[Pela] boa noite,
Bernardo Biagioni

sábado, maio 05, 2007

Louco

Dizem por aí que Bernardo Biagioni está enlouquecendo.

E tem jeito de ficar normal?

Visitem esse cara: www.iliveinabunker.com
Manda demais.

Eu volto,
“Julinho da Adelaide”

quinta-feira, maio 03, 2007

Drink

Consuma meu corpo. Consuma bem, como quem vira num gole o resto de coca-cola numa latinha quase vazia. Sorva meus versos imaturos, de criança mal-criada revoltada com a professora. Trague meus pensamentos, e deixe a fumaça intoxicar o fumante passivo que me olha curioso. Beba-me a juventude, ou vestígio dela, que ora cisma em dar as caras por este corpo sedento. Usurpe minha alma, decepe-a, esquarteje as partes que lhe fazem gosto. Estou me entregando por inteiro, feito Cristo fez para a salvação dos homens. Deixo que entrem sem bater a porta, sem pedir senha ou pedido de identificação. Quero mesmo que entre, e me tome por inteiro. É proibido proibir, prego tanto a libertação de vossos corpos, jamais daria um passo atrás agora. Estou aqui pra ser pisado, questionado, não para ser elogiado. Quero que me conteste, quem sou eu para ficar falando de liberdade? Venha, venham todos, estou estendido na cruz esperando a primeira pedra a ser atirada.


[Reaja] Bernardo Biagioni

A Lamentável Trajetória de Patrick

Era pouco mais que 2:00 da madrugada quando eu cheguei no ponto de ônibus da Savassi, bairro tradicional da cidade de Belo Horizonte. Estava com um fiel amigo de fotografias de baixa qualidade (celular), Bruno Pimenta, e lamentávamos baixinho os probleminhas da vida.


Eis que chega cantarolando um samba antigo um velho conhecido, Patrick, 12, morador e adorador da favela "Morro do Papagaio". Conhecemos o Patrick em Junho do ano passado, ele estava em um sinal de trânsito perto de um grande shopping da região do Belvedere, bairro nobre da cidade. Na ocasião, convidamo-lo junto com seu irmão Ricardo, pouco mais velho, para andar nos nossos skates. Os garotos fizeram a maior festa, ficavam divididos entre os “carrinhos” e a bicicleta de um outro amigo nosso. O sorriso que cultivavam abertamente na face não deixava negar o quanto se divertiam, alimentava também a nossa alma um tanto quanto enferrujada.

Fiquei um bom tempo sem vê-los, ate que encontrei o Patrick fazendo malabarismo em um sinal de trânsito da Savassi. Ele jogava desordenadamente duas bolinhas para o alto, depois fazia o clássico gesto de agradecimento e vinha correndo em direção aos carros. Abri o vidro e fui logo o chamando pelo nome. Ele estranhou, e antes que eu pudesse lembrá-lo do memorável dia dos skates, o sinal abriu e meu tio arrancou o carro.

Alguns dias depois eu estava sentado em um bar e o vi passar correndo com alguns amigos. Só se ouvia da boca do Patrick "corre de menor, corre!" Atrás vinha o dono de uma padaria, bufando e parando aos poucos. Ele virou para a nossa mesa e desabafou enquanto tomava ar: "roubaram um pacote de chips na minha padaria, meninos filhos duma p***".

E fiquei um bom tempo sem vê-lo, sequer lembrava do rosto dele. Até que ontem eu o encontrei. Ele vinha na minha direção cantando o sambinha, e antes que estendesse as mãos para me pedir uns trocados eu lhe chamei pelo nome. Ele me olhou assustado, os olhos pretinhos e arregalados como na vez do sinal de trânsito. Para nossa surpresa, minha e do Bruno, ele cheirava uma garrafinha pet de 500ml, que abrigava um resto de cola. Já sentados no passeio, tentávamos lembrar ele do dia em que ele saiu com a gente. Não demorou muito.

Patrick largou a garrafa e abriu um sorriso que, com certeza, jamais vou esquecer. E dividido entre eu e Bruno, começou a recitar os fatos: "poxa, era um skate grandão assim oh" e com um olhar distante esticava as mãos para desenhar a sua saudade.

Ficamos um tempo com os clássicos sermões de quem se preocupa com um ente querido. E falávamos que ele tinha que largar a cola e estudar. Bruno perguntou o que ele preferia: uma garrafa cheia de cola ou um brinquedo. De novo ele mirou os olhos negros para um vácuo e começou a falar bem alto "um brinquedo, claro! Igual daqueles que tem no Mc Donalds.”

O Bruno tirou o celular do bolso e tirou algumas fotos do Patrick, ria baixinho enquanto falava: "vou provar para todo mundo que eu tenho um filho sim!" Patrick e seu amigo que havia chegado pouco depois ficaram enlouquecidos de poderem se ver em uma telinha tão pequena.

E sem mais nem menos ele levantou, olhou para os amigos e disse: vamos! Olhou para a gente e disse que ia dormir por ali mesmo que estava com muito sono para esperar o ônibus. Segurei a mão dele e busquei os seus olhos, mas estavam depositados no chão. Senti um aperto no peito, uma tristeza fria percorrendo cada espaço do meu corpo. Olhei para o Bruno e vi que ele sentia o mesmo. Pegamos o mesmo ônibus, mas não trocamos nem uma palavra sequer durante todo o caminho.

É essa a historia do Patrick, pelo menos até aqui. O final, os olhos dele vão escrever. Talvez com a ajuda de um pai alcoolizado ou de uma mãe escravizada pela sociedade. Ou talvez ainda por pessoas sensibilizadas com situações semelhantes a essa, como eu e o Bruno, que havemos de lutar de aqui em diante por pelo menos uma cidade melhor.

Lutemos.