Encontraram-se por acaso quando ele estava saindo do trabalho na segunda terça-feira de um falso fevereiro. Ele passava pela porta daquela requisitada padaria do bairro e acabou vendo seu carro estacionado colado na esquina. Pegou o retorno na primeira chance, voltou no começo a música que tanto ouvia e parou o carro por perto. Entrou, ela estava saindo, olhou-a nos olhos e sentiu todo seu corpo corando, estremecendo e fibrilando. Ela hesitou, correu os dedos pelos cabelos negros e passeou nos próprios passos esperando que ele finalmente tivesse coragem de dizer tudo que deveria ser dito ali e por hora: "Vamos comigo embora?"
terça-feira, agosto 11, 2009
segunda-feira, agosto 10, 2009
Noir
E também sei que jamais esquecerei daquelas noites nem tão frias de um inverno distante, quando tudo que fazíamos era sentar no carro e ficar trocando lembranças com pensamentos enganosamente preocupados. Nossos dedos, beijos e lampejos rodopiando pela fumaça do seu cigarro e todo aquele cheiro afável da liberdade dançando bem na nossa frente. Livres, livres e livres. Era só e disso que sabíamos e sentíamos junto das suas unhas, nossos abraços e do espaço vazio que nos separava. Duas músicas, oito, doze, o tempo parecia finalmente perdido do próprio tempo e seguia tropeçando, acelerando e engasgando por cada uma de suas paradas. Olhos por olhos, lábios nos lábios e uma vontade inflamável de gritar para o mundo aquilo tudo que eu mal seria capaz de sussurrar: sê minha e agora.
Bernardo Biagioni
Bernardo Biagioni
sexta-feira, agosto 07, 2009
Tragédia
Acorda às seis, sai às sete e chega às oito da noite em casa. Pontualmente. Não falta com a novela, com os novelos, com a comida para os passarinhos da vizinha e com as duas xícaras de água com que alimenta suas plantas - Tem duas orquídeas e uma samambaia robusta e longa. Tão longa que chega até o andar de baixo.
Seu último sorriso foi no almoço de ontem, quando sentiu o rosto se corando por culpa das investidas tímidas e suspeitas de um alguém qualquer. Não sente uma mão deslizando por suas costas desde a última primavera. Sente saudades - embora não confesse - mas a vida parece mais segura agora que controla suas rédeas.
Não é feliz e sabe. Sabe bem que não é feliz. Tem compromissos, horários marcados e até planos para o futuro, mas são todos tão interessantes quanto o rosto que enxerga nos espelhos da vida. Parece mentira, mas tem vinte anos e pouquinho e já parece estar cavando o próprio túmulo. Bebe pouco, come muito e só fode consigo mesma.
Maria, chama. Mas ganha outros nomes pelos caminhos por onde se bandeia. Porém, de norte a sul, de sul a oeste, recebe só e apenas o apelido de Tragédia, assim curto e assim simples. Sente-se sozinha no escuro, mas não se preocupa e não liga. No fundo ela bem sabe que o mundo está cheio de Marias.
Bernardo Biagioni
Seu último sorriso foi no almoço de ontem, quando sentiu o rosto se corando por culpa das investidas tímidas e suspeitas de um alguém qualquer. Não sente uma mão deslizando por suas costas desde a última primavera. Sente saudades - embora não confesse - mas a vida parece mais segura agora que controla suas rédeas.
Não é feliz e sabe. Sabe bem que não é feliz. Tem compromissos, horários marcados e até planos para o futuro, mas são todos tão interessantes quanto o rosto que enxerga nos espelhos da vida. Parece mentira, mas tem vinte anos e pouquinho e já parece estar cavando o próprio túmulo. Bebe pouco, come muito e só fode consigo mesma.
Maria, chama. Mas ganha outros nomes pelos caminhos por onde se bandeia. Porém, de norte a sul, de sul a oeste, recebe só e apenas o apelido de Tragédia, assim curto e assim simples. Sente-se sozinha no escuro, mas não se preocupa e não liga. No fundo ela bem sabe que o mundo está cheio de Marias.
Bernardo Biagioni
domingo, agosto 02, 2009
Castaneda
Veja, homem. Seus panos estão se arrastando pelo chão sujo, que tamanha estupidez deixar que seus panos se arrastem pelo chão sujo. Venha, venha, quero te mostrar o Lago que existe atrás da casa, é grande e largo, cabem muitas pessoas como Vocês andaram me pedindo. Aceita algo para beber? Tenho aqui uns whiskys, conhaques e outros tantos potenciais deturpadores mentais que podem ajudar nesse seu processo de expaaandir Tudo. Você expandiu tudo, Carlos? Expandiu tudo? Chegou até o nobre tormento atento do tempo que fere os descompassos do vento e faz você escrever assim, como um novo lunático dos versos seguidamente repetitivos por culpa do Ócio dos dias? Uau! ::::::: diria o Tom Wolfe que esteve serpenteando uma caminhoete pra cima e pra baixo daquelas ladeiras infinitas de La Honda. Mas agora acabou. (As letras agora ficam menores e a música muda). Acabou e aqui estamos, frente a frente, versos com versos e prontos para uma boa conversa. Podemos ir?
Bernardo Biagioni
Bernardo Biagioni
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