segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Fudeção Bebop

Os versos vieram tropeçados, balbuciados pelo contratempo temeroso de um solo de jazz construído nos mínimos detalhes de uma melodia sinfônica. Correram o ar ferindo o timbre nada-tímido do piano que seguia transformando a canção. Ela fitou-me os olhos, arrastou o sapatinho pequenininho pelo assoalho sujo e veio rodando a saia rodada no tempo seco. Tive medo, saí me despejando para a lateral enquanto ela sorria os passos pela madeira surrada, deixava-se debater pela porta da sala entreaberta e escorria o corpo pela parede até tocar o dorso no chão. O sax brigava com a tranqüilidade do tempo, nada de voz, gritos, sussurros ou gritinhos. O bebop continuava estalando o ar, a freqüência ininterrupta dos acordes consumindo cada pedacinho do quarto apagado pela malevolência dos dias. Dei-me por vencido e cai sobre seus pés implorando uma única miserável dança. Aceitando ou não ela ergueu-me sobre seus seios, cravou seus braços pelas minhas costas e me colou junto ao teu corpo de uma maneira desleal. Olhei para os lados, procurei por ajuda, mas o relógio de ponteiros pendurado na parede anunciava que já era tarde demais. Jogou-me na cama, pulou por cima, segurou pelo lado e sussurrou junto com o contra-baixo que palpitava pelas caixas de som: “Se fudeu”. Não, não, errou. Quem terminou fudido não fui eu.


Bernardo Biagioni

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