quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Reflexos

É bom quando vem em ondas. O raio desce pelas têmporas, rasga o tímpano como um ruído até desaparecer em uma tontura titubeante. Oscila entre temperaturas flamejantes e esfria as condolênscias do corpo. Imploramos que não, mas continua descendo pela traquéia, chega aos pulmões e, fica então, se debatendo efusivamente nas quatro paredes de alvéolos. Quando começa a ficar melhor, logo vem o pânico, o suor e a ansiedade.

Mas o pensamento ponderado resguarda sua segurança psicoátiva e você sabe que sua respiração já já irá voltar. Aí o corpo responde, o coração volta a trabalhar e as pernas sentem-se úteis novamente. Os céus que estavam fechados se abrem e as nuvens que filtravam seu horizonte se desfazem na rua como gotas cambaleantes de chuva. O que eram rugas, vira sorrisos e o que era dor, vira clamor.E, em segundos, tudo acaba, sua visão não é mais turva e as mãos sentem ânimo novamente.

Agora, então, você pára e respira. Seu corpo treme e agoniza até a verdade atravessar a sua mente sem anseios. Você está de frente para o espelho e não quer mentir para si mesmo: "Eu preciso de mais uma dose de beijos".


Reflexos,

Bernardo Biagioni

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Carnaval/Carta I/Resposta I

De: Bernardo Biagioni
Para: Raul Sampaio

Carta I

Pode ficar tranquilo que já estou preparado para o Carnaval. Acordei hoje cedo e montei os dispositivos que manterão os morcegos afastados do carro. Vamos precisar de água. Muita água. Receio que vamos nos perder pelo caminho, mas também tenho estudado alguns mapas. Acho que renderá uma boa história, se você quer saber. De repente uma reportagem que poderá mudar a vida das pessoas. Coloquei na mochila alguns livros que podem lhe interessar, inclusive o Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe. Vamos precisar de ajuda profissional para conversar com aquelas meninas do campo. Ah! Não esqueça da barraca. Tentei conversar na pousada hoje e me falaram que o estabelecimento havia sido alagado na última madrugada. O mais estranho é que a última vez que choveu naquela região foi em Junho do ano passado. De qualquer forma, o sujeito que me atendeu lá do outro lado não parecia estar mentindo. Eu sentia correr pela fiação o pânico que regojizava sua espinha vertebral.

Hoje cedo, passei no supermercado e garanti alguns alimentos - Estão falando que até o final da semana não haverá muito o que comer por aqui.
Já separei uma quantidade exuberante de pilhas. Serão necessárias muitas horas de energia. A sua fantasia de dançarino também já está empacotada. Não encontrei o chapéu de marinheiro, mas vou procurar amanhã cedinho. Fora isso também tem os CDs. Pensei em deixar alguns discos aqui, acho que não precisaremos de nada muito pesado nos próximos dias. Selecionei uma grande quantidade de músicas caribenhas, havaianas e cubanas. Também vou levar Jorge Ben, Bezerra da Silva, Adoniran Barbosa e Gotan Project - As garotas podem ficar a fim de dançar um tango mais acelerado quando a noite cair. O violão vai ficar. Assim que chegarmos, podemos invadir uma loja de instrumentos e recolher tudo que for necessário. É Carnaval, o dono não vai nem notar. Tem ainda as vodkas, as cervejas, a tequila e o Rum. Pensei em misturar tudo e levar uma garrafa só, mas uma atendente de telemarketing me aconselhou que não seria uma boa idéia. Bom, como eu disse no começo, já estou preparado para o Carnaval. Não ha com o que se preocupar - Logo,logo estaremos sentados no carro e poderemos sair acelerando por aí.

Ciao,

Bernardo Biagioni
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De: Raul Sampaio
Para: Bernardo Biagioni

Resposta I

Maldita memória essa sua hein?! Ainda bem que estou aqui cuidando do resto, senão... Bem, senão seria melhor nem imaginar.

Eu te avisei! Deixei até um bilhetinho na maçaneta da porta: "LEVE CAMELOS". Ninguém deve subestimar a utilidade de um animal desse porte. Caso não saiba, camelos podem ficar meses sem beber água. Dizem por aí também que eles nunca se cansam. E, caso ficarmos perdidos (posso ver que você, como eu, já está contando com isso. Ainda bem!), podemos nos alimentar da carne deles. Crua. Claro.

E, outra: Invada a loja de eletrônicos hoje de madrugada. Lá pelas 00:22, ou qualquer outra hora que ninguém suspeitaria. Pegue o máximo de gravadores que achar. Com certeza eles têm vários por lá. Digo isso pois cresci por aquelas bandas. Se te pegarem, não fale nada! Ou melhor, fale, mas seja breve. Diga que estava a procura de comida, mais precisamente, de sorvete. Não tem como, eles vão acreditar...

Gravadores roubados.
Riffs virtuosos.
Calças de couro coladinhas.
Mulheres peitudas.

Estarei acampado em frente a minha casa te esperando.


*Não acredito que aqueles dois canibais fumadores de erva vão nos acompanhar. A responsabilidade é toda sua!

Raul Sampaio

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Viva você.

JustificarViva a música, meu amigo! Viva tudo que foi cifrado, composto, rotulado e refutado. Viva a poesia, gente fina. Viva tudo que virou sinfonia, traços suaves no descompasso da nossa melancolia. Viva as drogas, os doces e as plantas, vamos colocar tudo ali na varanda e chacoalhar os cabeções. É isso aí, viva fazer a cabeça, fazer com que tudo isso enlouqueça sem deixar vestígios. Viva tudo que foi sofrido, o que não foi sofrido e o que vamos sofrer. Viva sim o sofrimento, é este aí o mais útil tormento para te tornar feliz. Viva a felicidade, então! Viva a vaidade, os perfumes e a lipoaspiração. Viva os quilos a menos e os quilos demais. Viva o surfe, o skate e a onda. Viva também o futebol, desaconselhável besteirol para quem quer chorar nos finais de semana. Viva os destinos, o destino e o destinatário. Viva os versos, os inversos e o contrário. Viva os desencontros, os encontros e os outros contos. Viva o cigano, o malandro e o brasileiro. Viva os Beatles, o Zeca Pagodinho e o Tom Jobim. Viva tudo que é latino, tudo que for assim. Viva o samba, o merengue e o mambo. Viva a salsa o blues e o tango. Viva os sorrisos, os rostos e as maquiagens. Viva os beijos, os lábios e as carnes. Viva os abraços apertados, as despedidas e a chegada. Porra, Viva também a estrada, a minha última namorada que não abandonei. Viva a verdade, as mentiras sinceras e os carnavais. Viva o sóis, as luas e os temporais. Viva tudo, meu amigo.

Viva você!

Bernardo Biagioni